Epidemia de bexigas em Alagoas - 1665 e 1666
Alex Rolim Machado
Bladder epidemic in Alagoas - 1665 and 1666Épidémie de vessie à Alagoas - 1665 et 1666Epidemia di vescica ad Alagoas - 1665 e 1666A pertinência da impertinência do tema
Dois anos já se passaram e a pandemia continua a nos assolar, apesar de várias vozes teimarem que já está tudo “normal”
ou “controlado”. A situação recebe um caráter absurdo por
conta da fraca e insuficiente divulgação da existência de uma
nova onda patógena, conhecida como Varíola do Macaco
(monkeypox). A despeito de uma informação aqui ou acolá, ou
de avisos de médicos e especialistas em relação a mantermos
os cuidados mais ou menos como eram na época de maior
impacto da SARS-Covid 19, parece que estamos vivendo em
um mundo de plena saúde e bem-estar.
Nesse sentido, falar de pandemia é como ficar remoendo
uma ferida que se quer cicatrizar pela força da vontade. A
ideia geral é que deixemos de falar nela, uma vez que “o pior já
passou” nos unindo para “seguir adiante”.
De fato, não pretendo aqui me distender a falar de pandemia ou de fazer um histórico sobre as várias epidemias que
assolaram a humanidade das épocas mais remotas à atuais
(no que tange Alagoas, creio que é imprescindível o livro de
Luiz Sávio de Almeida: Alagoas nos tempos do cólera).
O que venho propor como nervo central deste texto e ponto
de reflexão são dois pontos: a) a necessidade de um resgate
histórico da epidemia de bexigas que assolou o Nordeste
brasileiro em meados do século 17 e que teve impacto nas vilas
de Porto Calvo, Alagoas e Penedo nos anos de 1665 e 1666; b)
e a discussão sobre a maneira como ela foi instrumentalizada
pela classe dominante a partir de seus interesses próprios:
recrudescimento das relações de exploração de trabalho dos
escravos, negociações para sonegações de impostos e especulação em cima de itens de consumo como a farinha de
mandioca.
O que eram as bexigas?
O leitor deve estar se perguntando a essa altura do texto:
o que eram as ditas “bexigas” que causaram tanta morte e
desorganização social? De acordo com o Dicionário Portuguez
& Latino, escrito por Dom Raphael Bluteau, e publicado
em Lisboa entre 1712-1728, “Bexigas” era: Doença conhecida,
que cobre o couro de bostelas. Procede de hum sangue viciado,
que causa esta effervescencia na massa sanguinária, &
do sangue reconcentrado nas bostelas se gerão huns pequenos abcessos, com impressões corrosivas na pele, que nela
deixão humas pequenas cicatrizes. Gastão as bexigas três dias
em sair, despois de nove estão maduras, no fim de outros nove
estão secas. He mal contagioso, & e tão perigosamente
sympathico, que muitas vezes a irmãos, & irmãs, ainda
que distante huns dos outros, no mesmo tempo se communica. (...) Variolae, (...) He o termo, de que commumente usão
os Medicos Latinos.
Varíola. Nome já conhecido pelos médicos latinos, mas
que em Portugal e no Brasil era conhecido como bexigas.
Evidências e impactos das Bexigas e
da Febre Amarela em Pernambuco e Bahia
A morte de membros da classe trabalhadora e
escrava representava um duplo impacto de alta
magnitude na dinâmica colonial: déficits populacionais e diminuição de produção alimentícia
(o que agravava mais a situação), que causava a
carestia, seguida de especulação pelos agentes do
mercado e comércio. De acordo com Vera Lúcia
Acioli, houve, em Pernambuco, uma epidemia em
1677 chamada de “febre dos pântanos”. Ao que
tudo indica, a peste não chegou nas vilas mais ao
sul (como Porto Calvo, Alagoas e Penedo). Outros
pesquisadores como Fernand Braudel e Charles
Boxer igualmente deram atenção ao ano de 1685,
quando foi a vez da febre amarela atacar o “Brasil”,
especificamente Bahia e Pernambuco, se alastrando nas regiões por cerca de 06 anos, causando
“alta taxa de mortalidade”. Na mesma época, uma
epidemia de varíola atacou os africanos (1685-
1687) em Angola, causando um “impulso adicional ao recrudescimento do tráfico português de
escravos no golfo da Guiné, que havia diminuído”.
O cronista Frei Jaboatão, ao escrever sua obra em
1761, rememorou que em 1698 e 1699, respectivamente, a Bahia se apresentava com “uma grande
falta de mantimentos na terra”, onde o Alqueire de
Farinha poderia ter chegado a 16 tostões “e dahi
para sima” (1$600 réis). Além de Jaboatão, outros
depoimentos coevos sentiram a necessidade de
dissertar sobre as epidemias e suas consequências
para a parcela escravista e da classe dominante que
comandava a economia brasileira colonial. Para
o Padre Antonio Vieira, Jorge Benci, Rocha Pita e
Dom Domingos Loreto Couto – com seus excessos
de costume –, as situações do Recôncavo baiano
e da Capitania de Pernambuco foram as piores
possíveis, fazendo com que seus ecos fossem
sentidos no início e metade do século 18, tanto
em termos materiais, como no próprio imaginário local, passados a partir das memórias de seus
sobreviventes e/ou seus descendentes:
“Pe. Antônio Vieira, 1689 [Bahia]: Este ano,
muitos engenhos de açúcar deixaram de moer
cana, e, para o ano, só alguns poderão funcionar. As
pessoas prudentes aconselham-nos a vestirmo-nos
de algodão, a comermos mandioca e a voltarmos a
usar arcos e flechas por falta de armas modernas;
para que brevemente regressemos à selvajaria
primitiva dos índios e nos tornemos nativos brasileiros em vez de cidadãos portugueses”.
“Jorge Benci, 1700: Depois lhe ameaçava fomes
e esterilidades, das quais se seguiria tanta falta de
víveres e mantimentos, que os mesmos nobres
pereceriam de pura necessidade e falta do necessário para a vida. Estas fomes e esterilidades, não
há tantos anos que as padecemos? E por mais
remédios que se apliquem para que haja abundância, não continua a carestia? Ainda mal, que tudo
é verdade. Ultimamente lhe ameaçava pestes e
mortandades tão formidáveis, que o comum cemitério (chamado vulgarmente inferno) não seria
bastante para se sepultarem os corpos dos defuntos. E que destroços e mortes não experimentou a
maior parte do Brasil com aquele mortífero contágio da Bicha, cujas cabeças até agora não estão de
tal sorte cortadas, que as não vejamos ainda brotar
por vezes em febres e doenças mortais?”
“Rocha Pita, 1724 [Bahia]: Seguiu-se depois
uma geral fome, que alguns anos padeceu o Brasil,
por faltarem os cultores das plantas e sementeiras e dos outros gêneros precisos para alimentar a
vida, sendo tão considerável e geral esta ruína, que
ainda hoje se experimentam os prejuízos e consequências dela”.
“D. Domingos Loureto Couto, 1757 [Pernambuco]: Principiando em Pernambuco este voraz
contagio, correo todo Brazil, fazendo maiores
estragos nestas Provincias, que nas da parte do
sul. Falecerão infinitos escravos, e sendo estes os
que cultivão as terras e trabalhão nos Engenhos,
fazendas e lavouras, com a sua falta ficarão os
senhores destas possessões pobres, e impossibilitados para beneficiar as suas propriedades, por
todo tempo da sua vida. Seguio-se hua geral falta
de mantimentos, e padecerão os que livrarão com
vida, as mortaes inedias de hua fome de muitos
anos".
E, aqui, vejamos as retóricas daqueles homens.
Todos eles dão atenção à agricultura e ao problema
da economia mercantil colonial (o açúcar e a paralização de Engenhos) e do comércio alimentício
local (os preços das farinhas e da falta de alimento).
Excluindo D. Domingos Loureto Couto, é explícita
a preocupação com as elites e com as camadas
dominantes da sociedade colonial. Porém, apesar
do padre pernambucano salientar que os escravos
eram os mais atingidos, o seu discurso salienta que
a função de “salvar” os negros e negras africanos
não deveria partir de um ato de bondade, mas de
estratégia para manutenção da produção e reprodução da vida senhorial de seus donos. Vale a pena
re-transcrever a passagem de Couto, para reforçamos os horrores da escravidão e da força da estrutura do modo de produção escravista colonial:
“(...) com a sua falta [de escravos] ficarão os
senhores destas possessões pobres, e impossibilitados para beneficiar as suas propriedades, por
todo tempo da sua vida”.
E as vilas de Porto Calvo,
Alagoas e Penedo?
O preço do alqueire de farinha não aumentou
apenas por conta da pouca oferta e muita procura,
mas igualmente pela falta de transporte decorrente da diminuição dos trabalhadores escravos
atingidos e dos próprios mercadores receosos.
Fernand Braudel, estudando a Europa do século
17, encontrou evidências que na Florência, mercadores superfaturavam os produtos se valendo do
fator “perigo” nas épocas de pestes. A prática dos
mercadores que – vistos como oportunistas da
situação – era comum também na Espanha e na
Inglaterra, como bem salientaram Peter Burke e
Edward Thompson em suas pesquisas.
Voltando para o contexto das Alagoas, convém
ressaltar que o momento dos surtos de Bexigas, febres, pestes e seus correlatos, aconteciam
dentro de outra conjuntura de suma importância:
a das batalhas contra os mocambos de Palmares
nas matas e nações de povos originários hostis à
escravidão nos sertões da caatinga. Por conta do
período de guerra, plantações foram destruídas,
campos abandonados, casas queimadas, vilas
pilhadas, gados mortos e parte da população ficou
desamparada.
No que concerne o gado e o mercado de carnes,
observa-se já em 1664-1665 um período de carência do alimento na vila de Penedo e na região do Rio
de São Francisco, que fez com que o Governador
tivesse que encomendar carnes “de tão longe” para
dar “a todo o povo, como é estilo em muitas partes”.
O curioso é que, naquele ano de 1664, Recife e
Olinda sofriam daquela mesma falta, ocorrendo
com que o Governador Jerônimo de Mendonça
Furtado tomasse algumas providências, entre
elas a de estabelecer com que o gado da região do
Rio de São Francisco, pertencente à jurisdição de
Penedo, fosse comercializado em Olinda. Posição
que desagradou aos moradores e “atravessadores”,
de acordo com a “notícia que a Câmara do Rio de
S. Francisco” deu ao governador. E foi em 1665 que
a epidemia de bexigas nas regiões de Pernambuco
desceu até a Vila de Alagoas. Ou seja, não apenas o
clima e a guerra eram responsáveis pela morte do
gado: a falta de trabalhadores ocasionará, por sua
vez, e com sua força, a diminuição da criação e do
pastoreio.
Um reforço do argumento de que a classe
dominante colonial, e a Coroa portuguesa, pouco
se importava com a vida dos de baixo e dos problemas econômicos locais de suas vilas mais distantes, aparece no imposto cobrado para pagar o Dote
de casamento de Catarina de Bragança com Carlos
II de Inglaterra, em 1662. Além desse dote, Portugal
também teve que pagar pela “Paz de Holanda”, isto
é: uma indenização pelas guerras de restauração
em que os pernambucanos expulsaram os batavos
de terras americanas. Tanto os pagamentos quanto
os calotes do dote e da paz se alastraram nos séculos 17 e 18. O que vale ressaltar, no entanto, é que
as dívidas sobre o dote e paz ocorreram entre 1663
e 1666, quando a epidemia de bexigas, latente de
Olinda até Salvador, alcançou Penedo e deixou
rastros desastrosos na produção de gêneros, o que
acabou refletindo mais tarde na arrecadação dos
pagamentos e rusgas intensas entre população
local e altos administradores da Capitania.
Maior exploração da
força de trabalho
E o que acontecia em um momento de crise de
braços por conta de guerras, fugas e mortes por
epidemia? É difícil estabelecer uma assertiva. O
que se sabe é que, nos momentos de crise de uma
atividade produtora, aumentava-se a alforria, e,
no seu auge, a alforria era mais rara. Da mesma
forma, quanto mais barato o escravo, menor sua
vida útil, e, quanto mais caro, mais tempo de vida
o escravo terá.
Nesse sentido, pode-se fazer, aqui, apenas
algumas problematizações que só serão mais bem
trabalhadas a partir de pesquisas que mapeiem
com profundidade a população escrava no sul de
Pernambuco e o nível de produção açucareira.
Primeiramente, descartamos uma visão
simplista e paternalista de que haveria “naturalmente” um recuo da classe senhorial em “cuidar”
de seus escravos africanos e indígenas para
salvá-los ou resguardá-los daquele momento de
penúria. Se essa fosse a tônica, não teriam ocorrido os relatos da alta mortandade de escravos
e as crises de Engenho de Açúcar e Lavouras de
Cana. Da mesma forma, caso os escravos tivessem sido resguardados pelos seus Senhores,
provavelmente o Dote de Casamento de Catarina
de Bragança e a Paz de Holanda não teria sofrido
tantos calotes. Some-se a isso o fato de que o
mercado de carne, a partir dos gados dos sertões,
não teria entrado em crise.
Porém, como foi escrito no parágrafo passado,
precisamos de mais dados, principalmente os
provenientes da população escrava e da produção de açúcar, para reforçar com estatísticas os
argumentos aqui baseados em situações sociais.
Apesar de ser uma teoria, acredita-se que não
haveria um total resguardo do Senhor em relação
aos seus escravos, mas sim o inverso: uma superexploração da força de trabalho para a extração
de um sobretrabalho maior do que o comumente
era extraído. Seguindo essa linha de raciocínio,
proponho a leitura de que, ao não poder arriscar perder seu trabalhador para uma doença ou
para a fuga de um mocambo, restava ao Senhor
esgotá-lo ao máximo para conseguir reverter em
sua produção o pagamento que fez ao comprar
aquele homem ou mulher que estava agora em
sua posse. Afinal, lembremos que, no que tange a
farinha, havia produção, logo, trabalho.
A epidemia não matava apenas pela doença.
Os saudáveis eram igualmente mortos nesse afã
dos senhores e do mercado do açúcar em garantir
o retorno de seus investimentos e sua riqueza e
poder privado.
Historiar criticamente as epidemias
Em outras palavras: ao pensarmos em epidemias como um mal que assola toda uma população, não distinguindo ricos de pobres, estamos,
na verdade, mascarando as discrepâncias entre
as mortes para as diferentes categorias e classes
sociais.
A estrutura social de hierarquização contribuía em demasia na hora de decidir quem deveria viver, quem poderia morrer, e quem mereceria
o choro e os lutos dos historiadores e escritores.
Não existe democracia em uma epidemia, porque
uma sociedade dividida em classes não é democrática em sua estrutura.
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